sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O fio que os ligava

OBS.: Essa é a primeira vez que interligo meus textos. Depois que ler esse, não esqueça de conferir  "A menina na praça", escrito no dia  31/07/2014. Me digam aí nos comentários se vocês querem mais alguma continuação, ou gostaram do mistério deixado.


Ele acordou cedo. Tomou seu café com leite. O cabelo estava bagunçado, e a cara estava amassada. O celular tinha mais de cem mensagens para serem respondidas no WhatsApp. Tudo numa madrugada só. Ele só conseguia pensar em como as pessoas eram desocupadas... Ninguém tinha que dormir pra trabalhar ou estudar  no dia seguinte? Só ele tinha cinco trabalhos pra entregar na faculdade naquela semana? Só ele tinha que cuidar de seu irmão mais novo quando seus pais saíam no fim de semana? Ninguém mais tinha nada com o que se preocupar?

Quando já estava quase dando nove horas ele saiu para ir no parque. Comprou um suco e ficou lá sentado observando as pessoas indo e vindo. Observou até um broto de uma rosa branca, a flor favorita de sua mãe. Os murmúrios de seus pensamentos iam e vinham tão rápido que era como se estivesse tudo em um silêncio constante. Mas aquele silêncio inquietante lhe dava mais estresse do que tranquilidade. Era tanto barulho em volta e dentro dele que parecia não existir nada, 

Foi então Miguel resolveu começar a escrever. A inspiração veio de uma menina sentada a poucos metros de distância. Seus olhos turbulentos como ele. A linguagem corporal mostrando o quanto ela estava exausta. A bolsa jogada o lado com um milkshake cheio, sendo que ela já estava ali antes de ele chegar. O cabelo tão bagunçado, como se tivesse tido pressa pra sair de casa. Tentando fugir de seus problemas, ou tentando poupar os próximos dela de vê-la desabar.

O caderno de Miguel tinha sido de seu pai, portanto estava bem amassado. As folhas amarelas e o cheiro de mofo que antes incomodavam, agora lhe davam conforto sempre que o pegava para escrever. Ele começou a descrever a garota. Deu-lhe o nome de Samantha. Ela estava com uma regata branca simples, mas resolveu mudar para uma blusa do Mickey, seu personagem favorito da Disney. Apesar o cansaço, ela tinha uma aparência meiga... Talvez gostasse dos desenhos da Disney.  

Já deviam ter se passado uns vinte minutos quando ele acabou seu texto sobre ela. Tomou coragem e foi até sua personagem para lhe dar a folha que havia escrito uns seis parágrafos. Sua Samantha, olhou para ele indignada, e disse:

- Quem você pensa que é? Minha vida não é uma historinha para ser usada como brinquedo. Eu estou sim muito chateada e isso não te dá o direito de filosofar sobre quem eu sou. Se quer saber, você também está péssimo! Você se olhou no espelho antes de sair de casa?!

- Me desculpe. Eu escrevo poemas sobre o que vejo ao meu redor. É o meu hobbie. Se você se sentiu invadida, não era minha intenção - Respondeu ele sem graça - Posso apenas saber seu nome?

Ela o olhou de um jeito diferente, como se entendesse o que ele queria dizer de uma forma diferente, suspirou como se estivesse arrependida,  e apenas respondeu :

- Samantha. Não devia ter explodido assim. Fique com seu papel. Desculpe pela grosseria. Eu acabei de lembrar que semana passada eu te vi aqui e fiz a mesma coisa: escrevi sobre seus olhos turbulentos. E não esqueça de acrescentar nosso diálogo ao seu texto. Uma última coisa antes de eu ir embora: qual é o seu nome, garoto misterioso? 

- Miguel.

- Adeus, Miguel.

E partiu. Deixando ele pensando naquele fio microscopicamente fino que os ligava.  

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